Acho muito pertinente essa passagem do livro do Eric Ries, “A startup enxuta”. Vejo alguns colegas, principalmente da Academia, cheio de pudores com suas ideias de produto, evitando testá-las no mercado, de procurar apoio, etc, por medo de “roubarem sua ideia”.

Esse medo, como diz Ries, é infundado. Mas, acrescento um problema: este medo, em alguns casos, é apenas uma desculpa para não “botar a cara na rua” e verificar se a ideia é isso tudo mesmo ou apenas mais um insight que não deu certo (mas que pode se tornar alguma outra coisa útil com iterações e pivots).

Neste caso, a defesa da “ideia perfeita” se torna um subterfúgio do desafio de torná-la realidade, e, com isso, encarar todas as intempéries que vem junto nessa empreitada. Lembra “A obra prima incomum”, de Balzac: um pintor que buscou a vida inteira a pintura perfeita, mas que nunca conseguiu sair da tela em branco.

Por esse lado, entendo o medo. Afinal, empreender, tornar uma ideia realidade, é, de fato, um trabalho hercúleo. Diria, quase trágico, porque a necessidade de realização de uma ideia é constante, nunca acaba, e a chance de dar errado é enorme. É preciso recriá-la a todo o momento, porém sem garantias que dê certo.

Sim, não há garantias. Sinto muito: ter uma ideia nova não te dá o direito de exclusividade do mercado potencial que ela pode criar. Se no momento de criação, uma startup não tiver concorrência direta ou indireta (o que é muito difícil), no dia seguinte terá. E, provavelmente, com soluções melhores que a sua, visto que elas partem de um acúmulo de aprendizagem de descoberta de cliente que sua própria startup gerou.

“Mas essa ideia foi a coisa mais criativa que inventei na vida!”. Não, não foi. Ideias são mais comuns e ordinárias que cafezinhos no intervalo de expediente. Tem todo o dia e a toda hora. O verdadeiro gesto criativo não está em inventar uma ideia, mas torná-la realidade. Ao tentar tornar uma ideia realidade, você terá que recriá-la o tempo todo, de tal maneira que ao final de algum tempo a ideia original estará completamente alterada. E é essa a função de uma ideia: despertar o desejo de realização e ser descartável.

Como no quadro de Magritte, em que o pintor olha um ovo e pinta um pássaro, o empreendedor olha uma ideia, mas realiza outra coisa. A invenção não está na ideia, mas no que ela permite criar.

Uma ideia serve para quase nada. É apenas uma centelha, que se apaga fácil sem a chama do empreendedorismo. Empreender é o desejo de realizar. Quase como o amor, é um verbo intransitivo. E é essa paixão que dá validade a uma ideia, e não o contrário.

Eu ainda sou mais radical: um empreendedor que consegue tornar realidade uma ideia que não é dele é mais digno dessa ideia do que o autor dela. Ele é o verdadeiro artista.

“Você talvez fique surpreso de saber que a objeção mais comum que escutei ao longo dos anos construindo MVPs é o medo de que os concorrentes – em particular grandes empresas estabelecidas – roubem as ideias de uma startup. Quem dera fosse tão fácil ter uma ideia roubada! Parte do desafio especial de ser uma startup é a quase impossibilidade de ter uma ideia, a empresa ou o produto percebidos por qualquer um, quanto mais por um concorrente. De fato, muitas vezes dei a um empreendedor com medo desse problema a seguinte missão: considerar uma das ideias (um dos insights de menor importância, talvez), descobrir o nome do gerente de produto pertinente de uma empresa estabelecida, que tem responsabilidade por aquela área, e tentar fazer com que aquela empresa roube a ideia. Ligue para ele, escreva-lhe uma memorando, envie-lhe um press release – vá em frente, tente coisas assim. A verdade é que a maioria dos gerentes, na maioria das empresas, já está sobrecarregada com boas ideias. O desafio deles está na priorização e na execução, e são esses desafios que dão a uma startup a esperança de sobrevivência” (p.101-102).

Obs.: Esse comentário serve somente para a ideia pura, um insight, a total abstração, sem patente ou plano de negócio montado, por ex..